Continuamos Próximos - Entrevista a Catarina Valença Gonçalves

Entrevista a Catarina Valença Gonçalves, Diretora do Programa Avançado em Gestão do Património Cultural da Católica Porto Business School

“Urge oferecer aos profissionais no ativo, ou àqueles que virão a entrar no mercado de trabalho em breve, instrumentos de intervenção eficientes, adaptados à realidade do sistema português, e tendo sempre no horizonte as tendências globais do futuro. Quando esta capacitação de recursos humanos estiver sedimentada, Portugal poderá oferecer experiências culturais de excelência.” 

Como vê o papel do património cultural num momento de crise como aquele que vivemos atualmente, com a pandemia do COVID19?
É, de facto, em circunstâncias como as atuais que a capacidade de conceptualização de estratégias, identificação de oportunidades presentes e futuras, desenho de medidas efetivas e verdadeiramente consequentes na área do património cultural se tornam prementes. 
Visto de uma forma absolutamente fria: quando haverá outra oportunidade de ausência total de concorrência de atividades de entretenimento – futebol, shoppings, praias, festivais de música –, assim como um imperativo de foco no mercado interno? O património cultural concorre com estas outras ofertas de lazer quando a opção de gestão de tempo livre se coloca aos nossos concidadãos e, até hoje, todas as opções anteriormente referidas surgem como mais interessantes do que visitar um monumento. 
A concorrência, tendo sofrido um impedimento de oferecer serviços por um período muito mais longo e com medidas muito mais restritivas do que aquelas impostas ao património cultural, e sabendo que existe esse vazio de entretenimento por preencher, sabendo ainda todo o bem-estar que a experiência em património proporciona, bem como o redobrado impacto deste efeito positivo quando se trata de um visitante nacional, esta seria a ocasião ideal para o comunicar de forma apelativa, consistente e totalmente user friendly este recurso singular que existe no nosso país. 
Para agarrar esta oportunidade única, seriam necessárias formação e experiência da parte dos gestores em património cultural que lhes permitisse, antes de mais, identificar as oportunidades numa lógica de mercado e desenvolver a estratégia necessária para o desenvolvimento em quantidade e em qualidade da experiência em património cultural. 

De que números falamos no caso do potencial económico e social do património cultural?
Em 2017, os monumentos e museus de Portugal receberam mais de 20 milhões de visitantes, apenas contabilizando as entradas em cerca de 200 bens e equipamentos que dispõem efetivamente de entrada controlada. O país registou, nesse ano, um total de 21 milhões de hóspedes e cerca de 10 milhões de excursionistas. Cerca de 2/3 destes visitantes são de origem estrangeira. 
Ora, somente o universo de monumentos existente em Portugal supera os 35 000 (excluindo museus em edifícios novos, portanto), sendo cerca de 4 500detentores de um dos três graus de classificação existentes no nosso país. O número de cidadãos nacionais é conhecido por todos. O número esperado para hóspedes e excursionistas em Portugal até 2027 é um pouco superior a 40 milhões, sendo que a pandemia não alterará essas previsões de forma relevante.... 
Parece, pois, evidente, que Portugal dispõe não só de um atrativo incontornável e inimitável no quadro global que já garante consumidores e receitas consideráveis, mas também que esse mesmo atrativo opera num mercado com números francamente relevantes e aos quais devemos adicionar a “ativação” efetiva do ainda adormecido mercado nacional – foco de todos os agentes nacionais a operar no campo do turismo e turismo-cultural por motivo da crise económica decorrente do COVID-19.

Para além da disponibilização de maior número de recursos, existem dificuldades por ultrapassar no património já aberto ao público?
Devemo-nos perguntar se, nos recursos que são, à data de hoje, passíveis de serem fruídos, as experiências proporcionadas, a mediação oferecida, os serviços complementares de apoio à visitação (cafetaria, loja, wifi), o branding, a comunicação exterior, enfim, a qualidade, a competitividade e a eficiência da disponibilização deste ativo é levada a cabo da melhor forma. Estará a ser equacionada de forma estratégica? E tem em conta as melhores práticas europeias e internacionais neste campo, antecipando as tendências futuras? 
Se acrescentarmos a estas dúvidas a certeza de que existe um universo de novos ativos válidos pelo menos cinco vezes superior ao número de monumentos e museus atualmente controlados em termos de entrada, temos de questionar que recursos humanos e que formações especializadas existem no país para fazer face a esta gigantesca oportunidade.

Qual o passo imprescindível para que estas dificuldades sejam ultrapassadas?
Tudo passa pela qualidade da mediação, num espetro amplo. E essa qualificação só se consegue com mais formação. Uma qualificação orientada pelo pragmatismo, munindo os agentes das ferramentas necessárias e verdadeiramente operativas para atuar no sentido da criação de equipas sólidas, da comunicação eficiente, de estratégias de marketing adequadas, de uma opção por modelos de gestão funcionais e sustentáveis. 
Urge oferecer aos profissionais no ativo, ou àqueles que virão a entrar no mercado de trabalho em breve, instrumentos de intervenção eficientes, adaptados à realidade do sistema português, e tendo sempre no horizonte as tendências globais do futuro. Urge igualmente atender ao universo do património cultural no seu todo, sempre destacando o quanto este ativo espalhado harmoniosamente pelo país encerra nele mesmo significativas oportunidades de desenvolvimento sócio-económico para os territórios ditos periféricos – e que, afinal, constituem, no seu todo, a grande parte do território de Portugal. 
Quando esta capacitação de recursos humanos estiver sedimentada, Portugal poderá oferecer experiências culturais de excelência, quer se trate de um Castelo da capital, de um Centro de Arte Contemporânea no Norte ou de um Itinerário por monumentos fechados no Alentejo interior e construir as imperativas complementaridades entre eles. 
Somente então teremos criado uma âncora sólida para a necessária conquista da sustentabilidade do território nacional.

De que forma a oferta de formação nesta área pode contribuir para esta capacitação?
Formação nesta área pode, efetivamente, ser uma resposta muito forte às oportunidades existentes no setor do património cultural. A Católica Porto Business School, em parceria com a Escola das Artes e com a Spira, avançou com o lançamento de um Programa Avançado em Gestão do Património Cultural, que reúne especialistas, nacionais e estrangeiros, representativos das várias dimensões do Património Cultural (museus, monumentos, projetos de território, entre outros), associando-os a uma reforçada dimensão de Economia e Gestão, bem como de Comunicação e Marketing. A Viagem de Estudo a vários equipamentos e projetos no terreno e com aulas a serem ministradas pelos responsáveis dos mesmos in loco é, igualmente, uma dimensão determinante do Curso. 
O foco do Curso está em dotar os profissionais já no ativo ou a entrar no mercado de trabalho de conhecimentos, perspetivas e ferramentas operativas inovadoras e especializadas aplicáveis a este recurso cultural.