Ana Andrade: "Pensar, argumentar, comunicar"

Direito
Ana Andrade: "Pensar, argumentar, comunicar"
Domingo, 11 de Abril de 2021 in Observador Online

Qualquer bom comunicador, oralmente ou por escrito, em direto ou em diferido deve, antes mais nada, saber o que quer dizer, ter efetivamente uma mensagem para passar. Na sociedade pós-moderna em que vivemos, com múltiplos meios de comunicação à nossa disposição, sentimo-nos compelidos a dizer, a escrever, a fazer saber, a opinar.

Comunicar, falar em público, escrever (mormente em redes sociais) para um auditório desconhecido - eis as tarefas em que todos pretendemos brilhar, esquecendo-nos de que antes delas, no cerne de tudo o que escolhemos partilhar com os demais, deveríamos trabalhar duas outras competências: pensar e argumentar.

Pretender ultrapassá-las é condenarmo-nos a mais mensagens cheias de coisa nenhuma, mal estruturadas, facilmente rebatíveis, o que em nada abona a favor da autoestima que parecemos procurar naquilo que os outros pensam sobre o que dizemos. Qualquer bom comunicador, oralmente ou por escrito, em direto ou em diferido deve, antes mais nada, saber o que quer dizer, ter efetivamente uma mensagem para passar - e, para isto, tem de pensar: por que quero enveredar pelo caminho A e não pelo B? Que estratégias serão as melhores para abordar o assunto?

Saberei o suficiente sobre o tema em causa ou deverei ir informar-me melhor? Estarei capaz de responder a eventuais questões do público, ou do meu interlocutor, ou dos meus pares? Que mensagem pretendo que as pessoas recebam, afinal? São justamente estas questões, ou o modo como o emissor lida com elas, que podem marcar a diferença entre uma comunicação segura e cativante e uma outra, periclitante e causadora de confrangimento e desdém - muito antes de pensarmos na gestualidade ou na projeção da voz, ou mesmo da construção do discurso. Advogamos, por isso, o conteúdo antes e a par com a forma.

Daí que o primeiro desafio seja sempre o de saber o que queremos dizer, no tempo que temos disponível para o fazer, ao público que nos ouve (ou lê) - e começar por trabalhar nisso mesmo. Um discurso que não assente num pensamento sólido (que não dogmático, antes coeso e bem alicerçado) irá certamente manifestar a impreparação do seu autor, fragilizando-o e fazendo-o temer as questões da audiência, porque não se sente (nem está) preparado para lhes responder, já que nunca pensou nelas.

Defendemos a necessidade de um pensamento crítico, que entendemos como aquele que se debruça sobre si mesmo, falsificando-se enquanto se erige, de modo a que o sujeito pensante esteja ao corrente não só das várias perspetivas sobre um dado assunto, o que o fará discuti-las, entender os seus fundamentos e escolher a que considera mais bem formulada, como a que seja refutar as objeções que se coloquem ao seu pensamento.

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