"Eu, o meu cérebro e o emplastro digital"

Educação e Psicologia
"Eu, o meu cérebro e o emplastro digital"
Sábado, 15 de Março de 2025 in Lifestyle Sapo

Artigo de opinião de Patrícia Oliveira-Silva, diretora do Human Neurobehavioral Laboratory e vice-diretora da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa (FEP-UCP).

"Até há pouco tempo, podíamos acreditar que a inteligência artificial era apenas uma ferramenta e o cérebro permanecia firmemente no papel de mestre. Mas e se forem apenas versões diferentes do mesmo mecanismo? O cérebro aprende por repetição, reforça conexões sinápticas a cada nova experiência". Eis um caminho para a reflexão de Patrícia Oliveira Silva.

Não sei se o cérebro e os algoritmos competem entre si ou se simplesmente seguem caminhos paralelos. E permanece incerto se o cidadão comum já percebeu que, tal como um algoritmo, o cérebro é exímio a prever padrões, a ajustar-se às experiências que vamos acumulando e a antecipar as nossas escolhas. Ainda mais intrigante, não sei se nos damos conta de que ambos os “sistemas” operam a filtrar informações continuamente e a ignorar o que consideram irrelevante.

Esta dúvida surgiu quando eu estava à procura de um artigo, e fui inesperadamente arrastada para um verdadeiro emaranhado de sugestões. O algoritmo, solícito como sempre, decidiu que eu precisava de muitos outros artigos pelo caminho. Quando dei por mim, acabei por me desviar do rumo original. Entre sugestões personalizadas, títulos irresistíveis e algoritmos atentos às minhas preferências passadas, acabei por perder de vista o objetivo pretendido. E há um sentimento genuíno de entusiasmo nestas andanças. Muitas ideias novas surgiram, inesperadas, por caminhos que não tinha planeado seguir. Mas, quase ao mesmo tempo, veio uma dúvida: e se eu tivesse escolhido realmente o meu próprio percurso, em vez de me deixar guiar? Fui eu a fazer escolhas? Pensando bem, parece-me que não. Foi o emplastro digital! Lá estava ele, subtilmente na sombra das minhas decisões, a sussurrar-me sugestões irresistíveis ao “ouvido virtual”. É um emplastro astuto, que sabe sempre exatamente como aliciar o meu cérebro antes que ele próprio se dê conta das suas intenções. E o meu cérebro, inocentemente a acreditar que era o verdadeiro protagonista!

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