"Silêncio: Virtude e Vício"

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"Silêncio: Virtude e Vício"
Terça-feira, 1 de Outubro de 2024 in Líder Online

Artigo de Opinião por Arménio Rego, Docente da CPBS.

O silêncio é multifacetado. Pode ser bênção ou maldição. Permite-nos dialogar connosco e com os outros. Há mais de uma década, fui convidado para ministrar um curso de formação, em liderança, a diretores de escolas católicas de todo o país. Local: Fátima. Porque o curso começava de manhãzinha, viajei no dia anterior e pernoitei no alojamento que me concederam: uma casa de retiros contígua ao recinto do santuário. Cheguei noite adentro. Entrado no quarto, deparei-me com paredes despidas, uma cama e uma singeleza notável. Não havia aparelhos de TV ou rádio. O asseio e a simplicidade dominavam o “recheio”. A sensação de perda de contacto com o mundo exterior gerou-me desconforto e, até, alguma ânsia. Mas havia beleza naquela frugalidade. À medida que o silêncio me entrava na mente, fui-me sentindo aliviado. Arrumei a mala, lavei os dentes e saí para caminhar pelo recinto. Senti uma enorme paz – a do silêncio.  

Num mundo cacofónico, precisamos de silêncio – para descansar e refletir. Para ler. Contemplar a natureza. Escutar os pássaros. Passear entre o arvoredo. Mas também precisamos desse silêncio para refletirmos, dialogarmos com a nossa consciência e desenvolvermos a coragem … para não nos calarmos perante o que é inaceitável! Refiro-me aos perigos do silêncio nas organizações.

As pessoas calam-se por várias razões. Por medo de punição ou retaliação provinda da chefia. Para não ferir relacionamentos. Para não levar outra pessoa a “perder a face”. Por temer ser rotulado como “ovelha ranhosa”, “fraco jogador de equipa”, ou “sempre do contra”. Porque se é introvertido ou pouco autoconfiante. Ou porque se sente que expressar voz é inútil e não fará qualquer diferença na situação em curso. Há também quem se silencie porque, simplesmente, está descomprometido com o trabalho, a equipa ou a organização. Por oportunismo. Para esconder, instrumentalmente, ideias, informação ou conhecimento relevantes. Por simples comodismo.  

Nem todos estes silêncios têm a mesma gravidade. Os mais problemáticos são, porventura, os que radicam no medo de “abrir o bico” perante decisões desastrosas, perigosas, ilegais ou não-éticas. São inúmeros os escândalos organizacionais que foram sendo “incubados”, ao longo de anos, por um clima de medo, frequentemente instigado pelas lideranças. O caso recente mais emblemático é a Boeing.

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