Viviana Pinto Ribeiro: “Não existem maus resultados: a ciência faz-se também do que não é publicado.”
Viviana Pinto Ribeiro é investigadora no Centro de Biotecnologia e Química Fina (CBQF) desde 2022 e docente na Escola Superior de Biotecnologia (ESB) da Universidade Católica Portuguesa. O seu trabalho científico cruza biomateriais, medicina regenerativa e engenharia de tecidos, procurando desenvolver soluções inovadoras para a regeneração da pele e para a criação de modelos de investigação biomédica. Distinguida com o primeiro prémio do programa Empowering Women in Agrifood (EWA), tem vindo a desenvolver um projeto que valoriza a pele de coelho, um subproduto da indústria agroalimentar, para aplicações biomédicas avançadas, aliando sustentabilidade, ciência e inovação.
“Foi a necessidade de entender as coisas e, inevitavelmente, de poder solucioná-las que me levou a querer seguir a carreira da investigação”
O que diria a um jovem que ambiciona ser investigador?
Acima de tudo para ser resiliente e não ter medo de sair da zona de conforto. A ciência exige rigor, paciência, mas também coragem para atingir os nossos objetivos. Perceber que falhar faz parte do processo, é fundamental para fazer investigação de qualidade. Não existem maus resultados, a ciência é feita de muito material que nem sempre é publicado, mas é isso que nos torna verdadeiros investigadores.
Foi a sua curiosidade que a fez querer ser investigadora?
Diria que mais que uma pessoa curiosa, sempre fui alguém que gosta de solucionar problemas e para isso é necessário perceber o porquê de as coisas funcionarem ou acontecerem de uma determinada forma. Julgo que isso está implícito na ciência, mas na verdade ser cientista nunca foi uma ambição enquanto jovem. Foi a necessidade de entender as coisas e inevitavelmente de poder solucioná-las que me levou a querer seguir a carreira da investigação. Percebi cedo que a investigação me permitia atingir estes propósitos e me dava liberdade para, em contexto de trabalho, fazer algo que me desafia.
“No CBQF descobri que é possível interligar diferentes áreas, como a alimentar, ambiental e biomédica, para fazer investigação conjunta”
É investigadora do Centro de Biotecnologia e Química Fina desde 2022. Como descreveria o ambiente de investigação no centro?
O CBQF tem um ambiente muito colaborativo e interdisciplinar. Aqui descobri que é possível interligar diferentes áreas, como a alimentar, ambiental e biomédica, para fazer investigação conjunta. De certa forma abriu-me horizontes e perspetivas. É muito enriquecedor. Além disso, a colaboração com empresas é algo muito estimulado pelo centro, o que nos permite fazer ciência com um caráter mais translacional e isso é algo que nem sempre é conseguido pelas universidades e centros de investigação.
O que é que a fascina nesta área científica?
A prática desportiva faz parte do meu quotidiano desde sempre, e ter tido a possibilidade de iniciar a minha investigação em medicina regenerativa na parte ortopédica foi algo fascinante, pois consegui desde logo perceber o lado do paciente e das lesões que pretende ajudar a solucionar. Com o tempo, explorar diferentes aplicações em engenharia de tecidos tornou-se um processo natural, pois já havia uma base de conhecimento sustentada que me ajudou a abraçar outros caminhos. Falo, por exemplo, da área do cancro e, mais recentemente, da pele, como a capacidade de usar biomateriais para estimular a regeneração do corpo. Trabalhar com matrizes descelularizadas e modelos permite criar soluções que podem melhorar significativamente a qualidade de vida dos doentes e isso é fascinante.
Tem-se dedicado a um projeto que utiliza a pele do coelho para desenvolver aplicações biomédicas avançadas. Qual é o impacto das descobertas realizadas?
O projeto AgriDerma transforma um subproduto da indústria agroalimentar, a pele de coelho, em substratos dérmicos avançados que podem ser utilizados em regeneração de tecidos, incluindo a pele, ou simplesmente como uma plataforma para investigação biomédica. O impacto está em unir sustentabilidade e saúde, criando soluções inovadoras para regeneração ou criação de modelos de tecidos para investigação. A distinção e a evolução tecnológica aproximam-nos da valorização industrial, escalabilidade e da transição para níveis de maturidade tecnológica mais elevados, abrindo portas a investimento e parcerias futuras. Estamos neste momento a avançar com a validação do processo que nos vai permitir escalar a produção das matrizes dérmicas de coelho descelularizadas, o que é um passo significativo para ditar o sucesso deste projeto. Estamos acima de tudo muito motivados com a possibilidade de fazer chegar esta matriz a todos os interessados e necessitados.
O que ambiciona para o projeto?
Consolidar a transição do projeto AgriDerma para a fase translacional é, neste momento, a minha principal ambição. Na área biomédica, este percurso implica enfrentar desafios exigentes ao nível da certificação, regulamentação e validação clínica. A área médica é particularmente rigorosa, o que significa mais tempo, mais dados e um investimento financeiro significativo. A possibilidade de trabalhar em estreita parceria com a Cortadoria Nacional de Pêlo, enquanto fonte do subproduto que, em conjunto, valorizamos, é uma enorme mais-valia. O sucesso deste processo depende muito desta colaboração estratégica, sustentada por uma visão progressista e por um compromisso genuíno com a sustentabilidade nas áreas que nos unem.
“Gosto de partilhar conhecimento e de inspirar alunos a pensar de forma crítica e inovadora”

Foi distinguida com o 1.º prémio do programa Empowering Women in Agrifood (EWA). Como foi a experiência?
Foi uma experiência transformadora. Destaco a mentoria personalizada, exclusivamente por mulheres, e a componente prática de capacitação em empreendedorismo, que me ajudaram a estruturar melhor a visão de mercado do projeto que tenho vindo a desenvolver com as matrizes dérmicas de coelho.
Além de investigar, leciona Engenharia de Tecidos e Biofabricação na Escola Superior de Biotecnologia. Como abraçou este desafio?
Abraçar a docência foi muito natural, mas desafiante. Gosto de partilhar conhecimento e de inspirar alunos a pensar de forma crítica e inovadora, especialmente na área que mais me desperta interesse. Reconheço que a maior dificuldade é tentar ser minimalista na forma como ensinamos, tendo em conta a terminologia por vezes complexa utilizada nesta área. Ensinar também me desafia a estudar e a estar constantemente atualizada.
Quem é que a inspira?
Inspiro-me em cientistas que conciliam excelência científica com impacto social e capacidade de liderança, especialmente mulheres que abriram caminho em áreas tradicionalmente dominadas por homens. Para mim, a Professora Ana Oliveira, líder do laboratório de Biomateriais e Tecnologia Biomédica do CBQF é uma referência incontornável. Foi através dela que tive o meu primeiro verdadeiro contacto com a investigação científica, e continuo a ter o privilégio de partilhar consigo as conquistas mais marcantes. Sem dúvida que o apoio dela é fundamental para o meu crescimento enquanto investigadora e ser humano. A Professora Manuela Pintado é também uma fonte de inspiração. A sua capacidade de gerir equipas, promovendo excelência científica, sem perder a preocupação com o bem-estar de todos, é profundamente inspiradora.
